sábado, 2 de abril de 2011

Tempo e Lugar

Ao isolar-se em seu mundo, acreditando que tudo o que fez foi em vão, ele teve a sensação de regressar àqueles idos anos em que vivia isolado, oprimido pela sua insistência em defender estranhos valores que, para si, não tinham significado.
Fugindo, caminhou pelo ar frio e nebuloso em direção à escola em que estudou, aos lugares onde foi feliz, depois de sair da casa dos pais. Ao distanciar-se daquela casa problemática, sentiu vergonha da infância desvanecer-se no passado. Mas agora entrou em todas as inseguranças e medos que sentiu durante a escola e juventude, todo aquele pânico de andar nuam corda bamba social.
Ele só se sentiu aliviado depois de regressar ao presente. Então sentou-se em sua cadeira, na sua casa, e refletiu. Viu o quanto tinha melhorado desde então. E esta melhoria, de dia para dia, fazia com que estivesse cada vez mais perto de encontrar a princesa. Se ela existir - e ela tem que existir - vai transformá-lo, a ele e a todos.
Na sua busca, ele sentiu que todos os lugares trazem uma emoção e que todas as emoções evocam uma memória, um tempo e um local. Não poderia ele encontrar a princesa agora, nesta madrugada, vagueando apenas de lugar em lugar, de memória em memória e vendo como ele se sentia? Um rastro de sentimentos, de respeito e de inspiração deveriam conduzí-lo a esse castelo: no futuro, envolto nos braços dela, o amor dela enchendo-o de contentamento; e isso cria um momento tão forte que ele consegue se lembrar dele no passado.
Então, sem delongas, ele parte na manhã seguinte em direção ao que quer que o amanhã lhe aguardasse. Sentia uma espécie de otimismo.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Tempo e Decisão

Ela nunca compreendeu os impulsos que o guiavam, nunca sentiu a intensidade que, ao longo do tempo, esculpiu linhas no rosto dele, nunca esteve o suficientemente próxima dele. Mas ele tinha-a como se estivesse. Ele acreditava que ela o compreendia. Sussurava-lhe palavras ao ouvido que apenas uma alma gêmea deveria ouvir.
Com o tempo ele cansou-se de precisar sempre se expressar para ser entendido. Cansou-se de sempre necessitar expor como se sentia, com todas as palavras. E uma duvida surgiu. Por que ele conseguia entendê-la sem ela nada dizer e com ele, ela não poder fazer o mesmo? Duvida maldita.
Claro, tudo isso há muito tempo. Hoje estava ele com "ela". E ambos sabiam que tinha chegado o momento. Ele teria dito: "Tenho de ir procurar a minha princesa", mas não era preciso. Deu-lhe um último beijo, pôs a mochila ao ombro e partiu. Ao longo de todas as noites que se seguiram, "ela" continuava a amá-lo como se ele estivesse ficado, para a reconfortar e para a proteger.
E muitas vezes voltou sem respostas, cansado, sem encontrar a sua princesa. E "ela" cansou-se dele. Princesa maldita.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Tempo e Mistério

Ele queria partir. Então deixou a princesa. Beijou-a, agarrou a sua mochila e foi-se.
Mas ele lamenta tê-lo feito… até um certo ponto.
Iniciou uma busca. Uma busca por conhecimento. Sua aventura se prolongou e com ela obteve respostas.
E com essas respostas iniciou uma nova busca. Uma busca para reencontrar a princesa. Para mostrar que sabe o quão triste foi sua decisão mas também para lhe dizer quão bom. Pois durante muito tempo julgou que estavam cultivando a relação perfeita. Ele foi ferozmente protetor tentando por um fim a todos os erros possíveis antes que estes afetassem a princesa. Assim sendo, mantendo com rédea curta os seus próprios erros, ela sempre lhe agradou.
Mas estar à vontade com o conforto de alguém é uma forma de “existir” com graves consequências. Pois para poder te agradar totalmente ela tem de te compreender totalmente. E não podes por isso desafiar as suas próprias expectativas ou estar fora do seu alcance. O amor e a tolerância dela limitaram-no e os feitos da sua vida não saíam para além do mapa que ela esboçou.
Ele não podia mais ser manipulável. Ele precisava de uma esperança de transcedência. Precisava, por vezes, de ser imune ao toque da princesa.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Tempo e Perdão

E ele anda a procura da sua princesa, sem saber o que fazer, onde ir ou o que falar. O que se sabe é que ela foi raptada por um ‘monstro horrível e malvado’. E isto aconteceu porque ele cometeu um erro. E não apenas um. Ele cometeu vários erros durante o tempo em que estiveram juntos. As memórias da sua relação desvaneceram-se, perderam-se, estão totalmente alteradas, mas uma imagem ficou marcada: a princesa a virar-lhe as costas bruscamente, seus longos cabelos ruivos a balançar de contentamento.
Ele sabe que ela tentou perdoar. Mas quem consegue esquecer uma mentira, uma traição? As relações mudam irreversivelmente com um erro assim, ainda que nós tenhamos aprendido com os nossos erros e não os voltemos a repetir. Os olhos da princesa estreitaram-se e ela tornou-se mais distante.
O nosso mundo, com as suas regras da casualidade, treinou-nos para sermos mesquinhos com o perdão. Se perdoamos demasiado depressa, podemos magoar-nos muito. Mas, e se aprendêssemos com os erros e nos tornássemos melhores por isso, não deveríamos ser recompensados por essa aprendizagem, ao invés de sermos castigados pelo erro?
E se o nosso mundo funcionasse de outra forma? Suponhamos que lhe poderíamos dizer: “Eu não queria dizer aquilo”. E ela responderia: “Tudo bem, eu entendo”, e não iria embora e a vida continuaria como se nunca tivéssemos dito nada? E da melhor forma possível, poderíamos eliminar os danos e mesmo assim aprender com as experiências.

Expectativas #1

Então ele chega e a encontra por acaso em uma festa. Aproxima-se olhando calmamente para os outros que ali se encontram. Ela está acompanhada, mas isso não o intimida. Ele continua seguindo em linha reta, na mesma direção.
Logo ela o nota. De princípio, se assusta. Porém, seu orgulho é maior e não deixou-se levar. Então ele caminha até chegar na roda de amigas e amigos dela, postando-se diante da mesma e falando com uma voz calma: - Vem e me escutas se algum dia me amaste. - Mas não obteve resposta alguma. Ficou ali parado, refletindo, pois não podia sair dali sem dizer o que queria. Então olhou fixamente para ela, que desviava o olhar, mas logo ela concordou e saiu para com ele ter uma conversa.
Ele tentou levá-la para um lugar mais cômodo, onde o barulho não atrapalhasse, mas ela não quis se distanciar, talvez por medo, talvez não, e logo parou e disse à ele: -Diga logo o que queres dizer! Por que viestes até mim? Qual o propósito disso?
- Eu vim pois não sei mais o que fazer. Se eu esperasse por ti, morreria esperando. Então trago-te boas novas. Dou-te a opção de ser feliz comigo, pois sei que me amas e que hoje vives tentando esconder isso com medo de sofrer…
Ela riu. E disse, interrompendo-o: - Aprenda a viver sem mim; aprenda a ser forte e feliz sem mim. Você é fraco e eu estou feliz sem você. Sim, te amei, mas hoje não mais como antes, então aprendas a viver sem mim pois eu já aprendi a viver sem você.
E com essas palavras caminhou de volta aos seus amigos e ao seu acompanhante, do qual respeita muito.
Mesmo assim, ele não se enfureceu com essas palavras. Mas correu atrás dela. E segurou-a pelo braço. Ela virou-se, e fitou-o com um olhar frio. E ele falou: - Falas isso sem ao menos saber se realmente sei ou não viver sem ti. Seu desejo é que eu sinta o mesmo que tu sentes, que eu viva o mesmo que tu vives, pois tu tens agora alguém para te acompanhar e és feliz com seus amigos. Mas somos diferentes. E eu até poderia passar o resto da minha vida sem você mas eu sei que não encontraria tal felicidade que encontrei junto a ti. Por isso eu luto. Volte comigo para casa, amarei-te como nunca, respeitarei-te da melhor forma e verás que não minto.
- Por que queres sempre estragar a minha vida? Por que não somes e nunca mais volta? Eu não quero mais, entenda! Estou feliz, do meu jeito. Nós não eramos mais felizes juntos…
- Você pode até ser feliz mas te esqueces de quem mais te amou e ainda ama. E, como sempre, não enxergas as coisas que faço por ti. Olhe em volta! - e nisso ela olhou ao redor e percebeu que todos estavam escutando, amigos, amigas e desconhecidos… e então paledeceu, envergonhada. E ele continuou: - Estou aqui me humilhando diante dos teus amigos; e mesmo assim não me importo, pois te amo e julgo certo o que faço que é lutar por quem amo. Também me humilho diante dos MEUS amigos, ou melhor, dos poucos que me restam, pois perderam a fé em mim e a admiriação. Tanto quanto os teus amigos, eles acreditaram que o melhor pra mim é ficar longe de ti porque não fui só eu que te magoeis, tu também me magoastes… mas mesmo assim eles ouvem e entendem meu coração, penso eu, e aqui não importa o que é certo ou errado e sim lutar por nossos sonhos e buscar ser feliz.
Ela refletiu, e a raiva cresceu no seu íntimo. Então falou: - Você nunca vai mudar, será sempre carente e fraco. E quem faz uma vez, fará duas ou três! Posso perdoar mas não irei esquecer. Sempre vou lembrar do que tu fizestes em momento de fraqueza. E eu não confio mais em você.
- Sim, é verdade que errei no meu passado. Passado esse que deveria ficar para trás, esquecido. Mas nada pode ser esquecido, de fato. E como uma sombra, isso me persegue por onde eu vá. Não temo ela, pois sou responsável pelo que fiz. Mas não ficarei sentado esperando que um dia a felicidade apareça na porta da minha casa. Quero reconquistar tudo que eu perdi. Pois o espaço que você deixou não há de ser substituído por ninguém.
Inclinou-se diante dela e disse: - Queres ser minha mulher, de hoje em diante, sendo respeitada e amada por mim, tendo os laços de uma família, alguém para amar, para ser seu amigo e confidente; ou queres continuar com sua vida de festas e diversão com amigos que um dia irão casar e irás aos seus casamentos e sentirás falta de amar e talvez nunca mais encontre a felicidade através do amor?
Ele parecia ver que a duvida crescia no coração dela, e então continuou: - Em toda relação há brigas, discussões, desentendimentos; e com uma boa comunicação tudo é resolvido. Não há lar e família que escape, e é através da conversa, compreensão e boa comunicação que tudo pode ser resolvido. Muitas vezes nosso orgulho nos impede de ficar de bem com a pessoa que amamos e queremos bem, então pense bem em tudo que eu te digo agora. Talvez um dia seja muito tarde para você poder voltar atrás.
Mas com essas palavras aquietou-se e refletiu. Depois de uma longa pausa, disse: - Talvez seja tarde demais até para mim…
Virou-se e foi embora para refletir.